Omikuji

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem esteve no Japão deve ter visto muitas árvores e suportes com essas pequenas tiras de papel amarradas, em templos e santuários.

É curioso, bonito e ninguém perde a oportunidade de fotografar como mais uma imagem diferente do Japão, pois os papéis parecem simular flores brancas dando um bonito visual.

São os "omikuji", conhecidos como "papel da fortuna" - muito apreciados pelos japoneses e turistas.

Embora já tivesse sido assunto da mídia brasileira, compartilho aqui para os que não tiveram a oportunidade de assistir e também para os curiosos da cultura religiosa do Japão.

Omikuji - おみくじ - são adivinhações escritas em pequenos pedaços de papel, encontrados em santuários xintoístas e templos budistas.

Estão em locais especiais ou anexas às lojas de souvenirs e lembrancinhas do local.
Em geral é um móvel com gavetas numeradas - onde estão pequenos papéis com a sorte escrita por extenso, em japonês -  e um recipiente contendo varinhas.

• Após a inserção de uma moeda em compartimento próprio ou à loja - alguns templos ou santuários estipulam em ¥100 - retira-se uma varinha (gohei) do recipiente. O recipiente contém um furo e, geralmente, as pessoas balançam bem até retirá-la. As varinhas, muitas vezes, saem espontaneamente, mas podem virar o recipiente para que uma delas saia.
• A varinha contém um número, escrito por extenso em japonês, e o "papel da fortuna" está dentro da gaveta correspondente.
• Se a varinha sair completamente do recipiente, deve-se colocar de volta.

Alguns templos ou santuários não utilizam o sistema de varinhas, estão disponíveis apenas em gavetas numeradas - onde pode-se escolher um número - ou em pequenas caixas e pode-se retirar o omikuji aleatoriamente.
Os resultados geralmente estão escritos em japonês. Alguns templos ou santuários que recebem grande número de turistas disponibilizam também, as previsões escritas em inglês.

Os papéis contém previsões que variam de Daikichi (grande sorte) a Daikyo (grande azar).
No caso do omikuji abaixo, o resultado não é muito bom, caracterizado pelo primeiro ideograma.


Os resultados tratam de sorte, saúde, vida, mudanças e são considerados divinos.
O conteúdo varia de um templo ou santuário para outro.

A modernidade trouxe outros modelos dos "omikuji", ou seja, funcionam como caixa de roleta.

Como se trata de uma mensagem sagrada da divindade, dizem ser correto levar para casa, como um aconselhamento, no entanto existe o costume de amarrar em árvore ou suporte específico disponível, caso o resultado não seja bom.
Alguns carregam o papel na carteira, caso o resultado seja bom, levando ao templo ou santuário, no próximo ano.
Há os que amarram quando o resultado é médio, para "melhorar" a sorte.

Este vídeo contem imagens do "omikuji" por ocasião do hatsumode - primeira visita de Ano Novo que os japoneses fazem ao templo - em Sensoji e da visita a um santuário xintoísta em Asakusa, oportunidade em que praticamos juntamente com o guia do jinrikisha, que ensinou todos os procedimentos em visita a um santuário.








23 de maio: dia do beijo e da carta de amor

quinta-feira, 23 de maio de 2013



O país onde as pessoas se curvam, mas não se tocam, onde dificilmente casais andam de mãos dadas pelas ruas e raramente se beijam publicamente, tem o seu dia do beijo.

Um filme é a responsável pela criação da data no Japão.


O filme Hatachi no Seishun - estrelado pelos atores japoneses Kaoru Aikawa e Michiko Ikuno,  dirigido por Yasushi Sasaki - surpreendeu com a primeira cena de beijo, em 1946.

Na época, os filmes japoneses eram controlados pela GHQ (Supremo Quartel General).
A inserção da cena do beijo foi aconselhado pelo próprio Comandante do GHQ, na tentativa de democratizar a sociedade japonesa através de filmes, no Japão pós-guerra.
23 de maio de 1946, foi a data da estréia do filme e essa é a origem do dia do beijo no Japão.

O breve beijo - ousado para a época, despertou a curiosidade dos japoneses, que chegou a lotar cinemas todos os dias - chocou e gerou debates sobre seu significado e adequação de mostrar as cenas em filmes, bem como teve a higiene questionada.
Sobre isso, os atores disseram que as bocas foram protegidas com gaze.

Quanto ao filme, não encontrei nenhum trailer na net, infelizmente.

23 de maio não é só o dia do beijo.



Koibumi - こいぶみ - significa carta de amor.

Através do trocadilho de que 23 de maio é escrito 5.23 e lido:
koi (5) bu (2) mi (3), é também o dia da carta de amor.

O filme "Carta de amor" - original da versão "Love Letter" - foi lançado em 23 de maio de 1998.



Essas duas razões deram origem ao dia da carta de amor.

Portanto, que tal enviar aquela cartinha à pessoa querida?

Lonas de plásticos azuis e vilas de papelão: acampamentos de homeless

terça-feira, 7 de maio de 2013

Orgulho, vergonha, baixa estima, foram os sentimentos que observei ao fazer uma busca pra saber o que significavam aquelas lonas azuis que avistava, de longe, nas frias manhãs de janeiro, em Shinjuku, Tóquio.


Estava hospedada em Shinjuku, na área em que ficam os prédios dos governos de Tóquio.
Tomava um ônibus até a estação e, sempre que parava no cruzamento, avistava algumas barracas e pessoas naquele local.


A imagem ficou gravada e todos os dias olhava para aquele lado, com um sentimento inexplicável, misto de curiosidade, impotência, preocupação... imaginando que fossem homeless.
Não dava para parar, pois o ônibus seguia direto até a estação, além do fato de que era um trajeto perto de ônibus e longe a pé. Em Tóquio, tudo é distante, todo tempo é precioso. Como se tratava de poucos dias, não poderia perder muito tempo.

Shinjuku, um dos bairros de Tóquio, tem um imenso terminal - que concentra várias linhas ferroviárias, metrô, ferrovias privadas, ônibus - considerada a estação mais movimentada do mundo.

O bairro é conhecido pelo entretenimento, servido por uma enorme rede gastronômica e vida noturna.

É lá também que fica Kabukicho, famosa área de entretenimento e distrito da luz vermelha, com clubes hostess, hotéis do amor, casas noturnas. O nome deve-se ao plano de construir, no final da década de 1940, teatro kabuki. O teatro nem chegou a ser construído, mas o nome ficou.

Shinjuku é detentora dos mais altos edifícios, hotéis de primeira e também das torres gêmeas da Tokyo Metropolitan Government Office Building, além de outras sedes de órgãos governamentais.

Grande centro comercial e administrativo são as principais referências.


Shinjuku Chuo Koen ou Shinjuku Central Park é um parque localizado em frente ao prédio do governo de Tóquio.

Dentro e ao redor do parque pude avistar muitos homeless - imagem contrastante da pobreza e de uma área onde grandes negócios são realizados diariamente - reforçando minha desconfiança que a imagem inicial fosse um acampamento de homeless.

Na imagem abaixo, alguém tomava seu café da manhã e escondeu, percebendo que tiraria a foto

O grande ciclo de pobreza, no Japão, deve-se à década perdida (Ushinawareta Junen), após o estouro da bolha de 1990.
Foi também uma época em que muitos brasileiros dekasseguis, em função do desemprego, sofreram com a crise no Japão.


Eles podem ser vistos em diversos locais espalhados no centro, perto de estações, praças, embaixo da ponte.

É grande o número de homeless no Japão, mas nem todos se hospedam nas ruas ou em acampamentos.
Muitos deles ficam hospedados em cafenet que, a princípio, foi criado para os clientes que perdem o último trem, no entanto, passou a ser mais uma opção de moradia, com direito a quarto individual, chuveiro, refrigerante e internet.

A maioria dos homeless são homens, de meia idade.
Poucas mulheres se tornam homeless. Dizem que as famílias dão mais apoio às mulheres do que aos homens.
Empresas japonesas preferem manter em seu quadro os homens casados aos solteiros, porque acreditam mais, devido à responsabilidade que tem com suas famílias.

Ao contrário do que se pensa, não são bêbados, vagabundos ou mendigos, em sua maioria. Muitos executam trabalhos temporários como agricultura ou coletando e revendendo embalagens recicláveis. No Japão, somente empresas credenciadas podem fazer coleta de material reciclável, no entanto tem sido a fonte de renda para sobrevivência de muitos deles.
Também nem sempre são maltrapilhos e muitos mantém suas casas de lonas azuis organizadas.
Muitos deles, um dia tiveram alguns bens e, em função do desemprego, resolveram deixar suas casas, alguns por orgulho, outros por vergonha e aqueles que acharam não merecer, como uma espécie de autoflagelo.
Em contrapartida, existem também muitas instituições religiosas e filantrópicas que ajudam os homeless.

Existem diversos acampamentos de homeless espalhados pelos distritos de Tóquio, em grandes parques localizados em Shinjuku, Ueno, Yoyogi, Shibuya, Ikebukuro, Gokokuji.

Obtive várias respostas, daquelas cenas, via net, que posto a seguir, é só clicar nos links.

Aqui estão algumas imagens, via Flickr, da Vista do acampamento, a partir do parque, o Acampamento com algumas barracas, uma Barraca e Varais com roupas lavadas dos homeless, que vivem em Shinjuku Central Park.

 Estas, em Ueno: Vista geral do Acampamento em Ueno,  o Acampamento com algumas barracas
mais barracas.

E esta, é uma imagem do acampamento perto de um rio em Tóquio.

As maiores cidades japonesas convivem com esse problema há anos.

Nagoia também tem seus sem-tetos dormindo em locais públicos.
Sobre homeless em Nagoia, fiz uma postagem, sobre grupos que distribuem sopão em praças.

Certa vez, ouvi uma conversa entre eles, que me tocou profundamente. Um deles se despedia de um colega homeless, dizendo que teria que ir, pois ainda não sabia onde dormiria. 

Em geral, são catadores de latinhas ou outros recicláveis


Não pode faltar ração para o sempre melhor e fiel amigo



Osaka é onde está o maior número de sem-tetos do Japão.
Lá, estão por toda a parte, sob pontes ou em ordenados acampamentos, uma delas no Castelo de Osaka.

Apesar de postados recentemente, os vídeos abaixo contém imagens de 2006.
PublicBlue Part 1. from [AHA] on Vimeo.

PublicBlue Part 2. from [AHA] on Vimeo.

PublicBlue Part 3. from [AHA] on Vimeo.


Nesta matéria, a BBC mostra a organização dos homeless de Osaka,  que formaram uma associação, bem como várias imagens.

Lendo este texto, pude entender melhor como são os homeless do Japão.

Takashi e Maru
Foto site Tokyo Weekender

Mas foi a história de Takashi e Maru - <<< clique, não deixe de ler - que me emocionou. 
Por trás de um sem-teto, existe um ser humano, com história de lutas, vitórias, fracasso e orgulho. 
A essência jamais será afetada, seja morando em um palácio, sob lonas azuis ou aldeia de papelão.

O cineasta KMLo conviveu com os homeless para fazer o documentário "Homeless in Japan". <<<< Clique e leia.
KMLo entrevistou homeless ex-acionista da JAL e ANA - duas grandes empresas aéreas japonesas -, além de ex-diretores de empresa, ex-gerentes de publicidade. Esses personagens reais estão no documentário, no trailer abaixo:



A maioria das histórias - aqui referenciadas - tem alguns anos, além de muitas outras não contadas, nas diversas províncias do arquipélago.
É um problema que o Japão vem enfrentando há muito tempo e vem se alastrando, cuja realidade não é apenas de países pobres ou emergentes. Embora de modo diferente, existe em qualquer lugar do mundo.


Grande Buda de Nagoia

domingo, 28 de abril de 2013

Mística, exótica, esotérica, zen!
Mantra, mudra e mandalas, influências das raízes do budismo, com origem na Índia: Templo Toganji, em Nagoia.

Apesar da grande imagem de 10 metros de altura, mais a base de 5 metros, até então este grande monumento em Nagoia é um tanto desconhecido.

Situado em uma movimentada avenida e próximo a uma estação de trem, o Templo Senryusan Toganji - da seita zen Soto* do budismo - chamado popularmente de Nagoya Benten ou Higashiyama Benten, também conhecido como o Templo do Grande Buda de Nagoia, tem sua fachada discreta, aparentemente "escondido".

*Soto Zen é a maior das seitas tradicionais Zen no budismo japonês - superando Rinzai, Obaku e Sanbo Kyodan - além de ser popular no Ocidente.


Fundado em 1532, por Oda Nobuyuki, em memória ao pai Oda Nobuhide - comandante militar, com uma vasto histórico de batalhas e poder, referido como "tigre de Owari" - que faleceu aos 42 anos de idade, foi inicialmente construído na aldeia, denominada na época, Nihonmatsu Suenomori - ao sul do Castelo Suenomori - atual Honami-cho.
Foi transferido para o endereço atual em 1714.



Toganji seria apenas mais um Templo que abriga um grande monumento do Buda.
Conhecendo o Templo, seus edifícios, o Salão Principal, outras imagens pelo imenso terreno percebe-se que é muito mais. É preciso conhecer alguns mistérios da complexa seita hindu.

O grande monumento não é o tradicional.
É uma imagem feminina.
O Templo é dedicado à deusa Benzaiten - ou Benten, nome japonês de Saraswati, deusa indiana da música e da sabedoria. Templos dedicados à deusa Benzaiten fazem muitas referência à água e, muitos deles, estão localizados em rios ou lagos.
Benzaiten é a deusa das artes - principalmente da música -, do amor, da beleza, do mar e de tudo que flui como água, palavras, eloquência, conhecimento.
Dizem também que esta deusa evita terremotos e é adorada em ilhas, especialmente Enoshima.
Seu marido era um dragão malvado que ela domou. Dragões e cobras - este último, seus mensageiros -  são sagrados para ela.
Sua imagem, muitas vezes, aparece com oito braços.
Ela é também um dos sete deuses da Fortuna, como mostrei nesta postagem

O Templo Toganji tem um ambiente extremamente zen e com simbolismos incríveis.
Suas principais atrações são:  Salão Principal, estátua de Kannon, Salão Sarasvati e o Grande Buda de Nagoia (Nagoya Daibutsu).

Adentrando o portão, há um pequeno lago com duas imagens que lembram o sol e a lua.
No escuro lago, só mesmo o barulho de uma pequena bica d'agua.


Muitas imagens e construções antigas compõem o cenário

 Temizu*
Temizu* é o local de purificação simbólica - comum em santuários xintoístas - onde, antes da oração, lavam-se as mãos e boca.

Um portal aparentando construção recente, denominado "Portão da Eterna Juventude" chama a atenção. À frente da entrada do Palácio do Dragão, imagens de 2 cães de guarda e um grande sino, na parte superior.
Menção a Oda Nobuhide, a quem o templo foi dedicado

Bambus, muitas árvores e flores.


Seguindo em frente, após o portal, um caramanchão à esquerda e, do outro lado, uma estátua verde aparecia.



Diversos monumentos por outros caminhos, significativos.

Olympic Tower, extra-oficialmente soube que Nagoya disputou as Olimpíadas de Verão de 1988, que ocorreu em Seul. Por isso, o grande monumento ficou pronto em 1987.


Túmulo de Nobuhide


Este monumento foi construído em memória aos 400 anos do falecimento de Nobuhide Oda, cita a data de 8 de novembro de 1951.


Réplica de um pagode (de 3 andares), comum em templos budistas.


Os jardins bem tratados, remetem à profunda ligação do Templo com a natureza.

 Portais separam os jardins


Do outro lado, o Salão principal. No caminho, a estátua de Kannon, ou Kanzeonbosatsu - deusa da misericórdia - uma das principais divindades do budismo.


O Salão Principal é fascinante.





Paredes são decoradas até ao teto, gravuras, fotos, mandalas.




Réplica do grande monumento


Diz-se que tocar neste enorme peixe de madeira, os pecados do passado desaparecem.


Um pequeno e antigo santuário, entre o Salão Principal e o Salão Sarasvati.

Dentro, imagens fálicas

Ao lado, um jizo, com imagens fálicas


Seguindo para o Salão Saravasti, um temizu, representado por um lingam* em bronze, com uma serpente na base.

*Muitos imaginam, ou, existem muitas associações do lingam ao órgão sexual masculino, pelo fato de estar representado por um falo. No entanto, neste contexto nada mais é do que uma marca ou referência, um símbolo que representa a fecundidade, o poder generativo do universo.

Criaturas que dominam as águas, como serpentes e dragões estão intimamente associadas a Benzaiten no Japão.

Árvores com oferendas infantis e omikujis amarrados em árvores, nas estatuetas.



É preciso pagar uma taxa para entrar no Salão Saravasti. Fotografias no interior não são permitidas. Dentro do Salão, imagens fálicas e da deusa Benten dormindo.



No vaso de bronze, images de elefantes, um dos animais sagrados na Índia,  e é o símbolo da encarnação de Buda.


Em direção ao cemitério do Templo está o grande monumento.
Flores no caminho, uma pequena área de descanso.



A grande estátua foi construída em 1987, pelo escultor Naga Haruyama. Em 2006, foi pintada na cor verde, com pálpebras, lábios e centro das orelhas douradas.


Esculturas e pinturas do Buda,  na Ásia, geralmente são representadas com mudra, ou seja, um gesto característico que indicam a natureza e função da divindade.



Este gesto - mãos ao nível do coração e junção do polegar com o dedo mínimo da outra mão formando círculo - está associado ao primeiro sermão de Buda, após alcançar a iluminação.
Uma referência às leis e pregações do Buda.
Converte ignorância e confusão em sabedoria, vindo (ou através) do centro do coração.



O mudra desta grande mão, expressa a energia da compaixão, libertação e oferta de aceitação.
No centro da mão, uma mandala.

No budismo, o mudra está relacionado a um mantra e uma Mandala. Juntos, formam os 3 segredos do Universo: pensamento, verbo e ação.


Para melhor visualização do Templo, postei este vídeo: